Sempre falta tempo. Aliás, caso você não tenha notado, a cada dia que passa falta mais tempo na sua vida. Para escrever então, nem se fala.

Li outro dia sobre o Michel Melamed, o cara que apresenta um programa interessante na TVE. Recorte Cultural. Ele falou que não tinha TV em casa para conseguir terminar seu projeto de ler cem grandes obras da literatura brasileira. Era mais ou menos isso. Tinha um prazo também na história. Procure no Google se quiser saber mais.

A grande pergunta não é “como ele se assiste se não tem TV em casa?”, mas sim “para aonde está indo a porra do meu tempo?”. Se eu não estou escrevendo tanto neste fracasso de blog, pelo menos deveria estar fazendo algo mais útil do que o Melamed.

Esqueçam a história de jogar a TV fora. Além de acompanhar a novela das oito (único hábito que mantive da época de casado), preciso dela para ver os DVDs educativos que compro na banca de jornal. Lamento muito, mas duvido que seja possível bater umazinha lendo a obra completa de Machado de Assis.

Dizem que o ócio criativo é fundamental para ter qualidade de vida. Pois bem, nos últimos tempos minha atividade ociosa preferida é sentar no bar, virado para a rua, e degustar uma cerveja. A cada mulher que passa, crio uma cantada toscaria bem ao estilo porteiro. A diversão é nunca repetir verbos, substantivos ou adjetivos. Metáforas inovadoras valem pontos extras.

Falar a cantada em voz alta depende do gosto do freguês. Ou do tamanho do namorado da mulher. Eu prefiro utilizar meu trabalho para realizar o que os profissionais de recursos humanos chamam de “couching”. A meta de curto prazo é ajudar o porteiro do meu prédio a comer a babá peituda do 507.

Se homem é tudo igual e só muda de endereço, por que as gostosas nunca sabem o seu CEP?

Quem não cola não sai da escola. Quem usa coca também não. Mas pior é você, que já se formou, não tem vícios e vive endividado.

– Você parece tanto com meu neto que trabalha nos Estados Unidos!

Dona Sônia me dizia isso toda vez que eu baixava no consultório médico da empresa. Talvez fosse porque eu realmente lembro o tal do Rodolfo (ou Roberto), que vive na Flórida (ou Texas), das inúmeras histórias que ela me contava. Ou talvez a coitada da já estivesse caducando mesmo. Tanto faz, Dona Sônia era gente fina e eu não ligava de ouvir sobre o Ronaldo na Califórnia. Até porque ela sempre fazia atestados me dando um feriado prolongado em casa para curar qualquer gripe besta.

O dia que ela se aposentou foi o primeiro que eu fiquei realmente doente em pelo menos dois anos. Acho que só eu e mamãe sabemos como minha saúde é de ferro, mas a notícia da perda das licenças médicas mensais da Dona Sônia me deixou de cama por três dias. Na volta ao batente, a única informação que obtive sobre a nova médica da empresa veio do Cardoso, um dos malucos do marketing.

– Rapaz, ela tem uma tatuagem tribal em cima da bunda.

E quando eu perguntei como ele sabia, já que a mulher andava de jaleco para cima e para baixo, a resposta foi ainda mais intrigante.

– Vai por mim, eu conheço mulher assim de longe…

Depois disso, sempre que eu tentava puxar o assunto, ele respondia com a mesma história.

– Ih, conheço mulher assim de longe…

Assim como? Assim… Sem resposta mesmo. Só as reticências acompanhadas pelo sorriso de canto de boca. E quando eu tentava perguntar para outra pessoa, até mesmo para o cara do meu setor responsável pela contratação da mulher, ficava ainda pior:

– É melhor você falar com o Cardoso do Marketing, ele que sabe qual é daquela rabeta.

Já cansado desse episódio bizarro e particular de “Além da Imaginação”, parti para uma abordagem mais direta. Então, numa quarta-feira tediosa, lá estava eu sentado no consultório com a médica rabuda enfiando um palito na minha boca.

– Você está com a garganta um pouco irritada.

Não diga! Eu passei o dia inteiro tossindo forçado para conseguir esse pretexto. Aproveitando o ensejo, reclamei de umas palpitações no peito e ganhei de brinde um exame mais completo. Enquanto ela tentava ouvir o meu coração, eu não tirava os olhos da bunda refletida no espelho logo em frente. Será que tinha mesmo uma tatuagem ali?

– Está tudo bem com o espelho?

Ela me pegou de surpresa. Um instante de hesitação como na primeira vez que abriram o banheiro e me encontraram com uma Playboy nas mãos. Minha boca abriu, mas a primeira palavra demorou meio segundo para sair.

– Estava pensando em algo que li outro dia… Na infelicidade do ser humano… A única maneira de nos enxergarmos é olhando um para o outro, porque no espelho tudo que vemos é invertido.

Opa, agora a surpresa estava do meu lado! Filosofar fora de hora é arriscado. Você pode terminar a frase parecendo muito profundo ou simplesmente um imbecil falando merda que ninguém perguntou. No meu caso foi desespero mesmo. Não consegui pensar em nada melhor.

Ela hesitou. Pareceu que ia dizer algo e depois desistiu. Continuou a consulta como se nada tivesse acontecido, mas no final me estendeu um pedaço de papel. Era o seu cartão.

– Se sentir algo mais tarde, ligue para o meu celular.

Será que ela queria me mostrar a tatuagem? Fácil assim?

Era isso mesmo. Inclusive, aproveito para fazer uma pequena homenagem às mulheres divorciadas. Elas são o que de melhor existe no universo feminino. Quando são fruto de um casamento sem filhos então, ficam ainda mais objetivas. Deve ser a decepção de finalmente descobrir que não existe o príncipe encantado. Junte isso com a queda de hormônios dos 30 anos, a idéia de que o tempo está passando, e logo elas não querem mais enrolação. Tenho a impressão que algumas ainda ganham uma pressão extra só de imaginar, mesmo sem se dar conta, que estão sacaneando o ex-marido.

Bem, desde que eu não seja o ex-marido, tudo certo.

O resultado é que mesmo sem a Dona Sônia eu voltei a ter minhas licenças médicas periódicas. E, como brinde, várias trocas de óleo caprichadas. Isso durou mais ou menos seis meses. Terminou também numa quarta-feira tediosa, quando pegaram a médica mostrando a tatuagem da bunda, durante o expediente, para o Cardoso do Marketing.

Foi a primeira e a única vez que soube de um profissional de marketing provando realmente saber do que falava para todo mundo.

Diga-me com quem andas que te direi quem és. Agora abra a sua caixa de e-mail e veja a quantidade absurda de mensagens imbecis que você recebe por dia.

Se a vida te dá um limão certamente tem alguém comendo uma melancia.

De realidade já basta o domingo ter acabado e a segunda-feira ameaçando mostrar sua cara feira daqui a algumas horas. Mas se tivesse de participar de algum reality show da TV, o único que eu não iria de jeito nenhum é “O Aprendiz”.

Logo eu, que faço de tudo para ninguém notar minha enrolação durante o expediente, forçado a trabalhar de verdade na frente de milhões de espectadores. Fala sério. Tenho menos o que fazer!

Pior do que isso é ter como chefe o Roberto Justus, que parece mais jovem do que você e pega a capa de Playboy preferida da sua coleção. Assim fica difícil falar mal do desgraçado. E trabalho onde não dá para enrolar ou falar mal do chefe é praticamente escravidão.

O Big Brother tem piscina, bebida liberada, uma porção de gostosas e o Pedro Bial para encher o saco nos intervalos. É quase um churrasco de confraternização de departamento em versão estendida. A diferença reside na eliminação dos participantes pelo público, e não pelo álcool.