Uma mesa de bar me trouxe até aqui. Não como um tapete voador faria (apesar de eu já ter visto uma briga de bêbado onde uma mesa de ferro da Skol sobrevoou a rua e terminou na outra calçada), mas sim com os poderes mentais que somente o álcool proporciona.

Entre garrafas vazias e petiscos quase quentes, Ed Correia perguntou:

– Cara, o que você sabe sobre fracasso?

Tenho 34 anos, pareço mais velho do que gostaria, bebo além do que deveria e sou extremamente feliz porque abracei minha condição de total fracassado. Passei da fase de negação, superei a raiva e atravessei correndo a resignação em direção ao prometido pote de ouro no fim do arco-íris: a indiferença.

Admito que tive uma boa ajuda da sorte. Meu primeiro, único e atual emprego é exatamente no coração da Besta. O departamento pessoal de uma grande empresa do Rio de Janeiro, uma das maiores do Brasil. Foi lá onde aprendi, ainda na flor dos meus 21 anos, uma importante lição materializada na folha de pagamento geral.

Você acha que sabe quanto o chefe do seu chefe ganha? Pense de novo. Números são frios, mas com o passar dos anos cada um dos nomes da lista ganha um rosto. Iluminados e cheios de vida no primeiro mês de trabalho, os olhos de quem passei a conhecer através da folha de pagamento envelhecem com o tempo. As rugas surgem. O medo da Regina Duarte vence a esperança cachaceira do Lula. Os números continuam frios.

Eles só esquentam lá para cima. Bem lá em cima da lista. E eu não estou falando de ordem alfabética.

Todo mundo devia saber disso desde o começo. Tem poucos lugares no topo e eles já estão reservados. Você pode correr, trabalhar mais do que precisa, mas de nada adianta se as regras já estão escritas e, acredite, elas não foram feitas pensando em você. “Só pode existir um”. “Dois homens entram, um homem sai”. “This is your life and it’s ending one minute at a time”. Nem no cinema os finais são felizes para todo mundo. Quem pensa assim esquece que tem muito mais gente além dos protagonistas. Os coadjuvantes também queriam se dar bem. Sem contar os figurantes e a grande maioria que nem aparece nos créditos.

Eu sou o fracassado Zé Alves. Seu porteiro também deve ser um Zé sem grandes expectativas. Você é um Zé e talvez não saiba.

Seu porteiro não se incomoda com isso. Ele tem consciência de que nunca teve muitas chances. Um trabalho chato em troca de um salário de merda. Passar cantadas nas empregadas. Escolha agora: foder por 20 reais na Vila Mimosa ou aceitar Jesus Cristo no coração? Um filho que se der sorte vira jogador de futebol. A ignorância pode ser sabedoria. Ele é feliz.

Eu sou feliz porque aprendi a não esperar nada. O que vier é lucro. Para você que está lendo isso agora no trabalho e realmente acha que algo vai mudar radicalmente daqui a dez anos, meus pêsames.